Boletim Materiais de Construção nº 385

 

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Alguém há-de pagar!

Começou a chegar o dinheiro da bazuca e o governo rejubila com o dinamismo da recuperação económica, pretensamente robusta, evidenciada pela redução do desemprego, que já começa a ganhar contornos, como sucedeu com o combate à COVID-19, de mais um “milagre português”.

E deve ser mesmo “milagre”, porque depois de anos consecutivos de estagnação da produtividade, pese termos consumido mais um par de dezenas de milhares de milhões de euros do último quadro comunitário, alcançámos recentemente mais um recorde de endividamento do país, ultrapassando os 762,5 mil milhões de euros! Ainda bem que os juros permanecem negativos…

O segredo estará, porventura, nos resultados do enorme investimento feito na educação e na modernização da função pública (com “vacas voadoras”), em especial no SNS, para não falar na ferrovia. Perdão, não foi feito, mas foi anunciado e isso, para os políticos, parece valer o mesmo.

rendimento por habitanteO problema é que não é batendo recordes na contratação de funcionários (e já são mais de 745 mil…) que o país fica mais rico. Para pagar todos esses funcionários é que é preciso gerar riqueza e isso é feito pelas empresas e pelos cidadãos no setor privado, quando os deixam.

Infelizmente, os privados estão sobrecarregados de impostos, que lhes deixam muito pouco para investir ou para gastar. Não é por acaso que Portugal ocupa o topo do ranking no que toca à percentagem de impostos pagos pelas empresas, aos encargos/taxas suportados pelas empresas sobre os salários e às taxas de imposto que incidem sobre os rendimentos do trabalho. Vai tudo para o Estado e depois choram “lágrimas de crocodilo” sobre os baixos salários ou a deficiente capitalização das empresas.

Então, como se explica este aparente sucesso? Subsídios e dívida! É disso que vivemos desde o pós troika. É isso e só isso que disfarça a má gestão do que é público e a falta de competitividade das nossa empresas, pequenas, descapitalizadas e sujeitas a regras burocráticas asfixiantes, a uma fiscalidade confiscatória e a um quadro laboral que é o mais rígido da Europa e gerador da maior das perversidades: empresas precárias obrigadas a socorrer-se de trabalhadores precários.

A negociação do próximo Orçamento do Estado, à esquerda, baseia-se em cenários que apenas discutem o que será a melhor repartição da enorme riqueza virtual criada pelas expetativas da chuva de milhares de milhões de euros de subsídios para contratar funcionários públicos, equipar serviços e escolas, comprar autocarros, comboios e computadores (e bicicletas), fazer linhas de comboio e metro, adquirir software por centenas de milhões de euros e ainda fazer dezenas de milhares de casas para pobres, remediados, funcionários públicos, estudantes (filhos de funcionários) e refugiados, mais umas fábricas de hidrogénio verde e refinarias de lítio, etc., etc..

Para já, tudo bem. Vai haver dinheiro, trabalho e negócios para todos, ou quase todos. Subsídios também vai continuar a haver, tanto quanto é possível prever. Mas o crédito, irá tornar-se bem mais caro e tanto mais difícil de obter quanto maior for a dívida e menor a capacidade demonstrada para a pagar.

É tempo de arrepiar caminho e aprender com quem vai mais à frente e até com aqueles que nos têm ultrapassado. Não podemos contar que o COVID dure para sempre.

 

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