Boletim Materiais de Construção nº 370

Esta crise é diferente das outras!

 

Ao contrário das últimas crises, mais ou menos cíclicas, os fatores que as desencadeiam vão-se acumulando ao longo de muitos meses e até anos, mesmo durante as fases de crescimento e prosperidade, sucedendo que quando são finalmente sentidas ou declaradas já foi entretanto percorrido um caminho suficientemente longo em que se sucederam e acumularam dificuldades, derrapagens, prejuízos e em que muitos dos indicadores económicos e empresariais se foram degradando.

Normalmente, apesar da incerteza sobre o prazo e a intensidade, as crises são previsíveis.

Esta não. Veio de surpresa e não permitiu a ninguém precaver-se, nem sequer preparar-se psicologicamente para o impacto. Há medo, mas ao mesmo tempo parece pairar uma certa inconsciência… Estaremos atordoados?

A verdade é que as consequências ainda não se fizeram sentir em toda a sua extensão e gravidade. Como numa bomba atómica, primeiro avista-se o clarão à distância, de seguida chega a onda de choque e só depois vem a vaga de calor que tudo consome. Os estragos variam consoante o afastamento ao epicentro da explosão, mas mesmo os que estão muito mais longe acabarão por ser afetados pela chuva de partículas radioativas que cairão durante semanas e que contaminarão por muitos anos todo um território e afetarão as próximas gerações.

Seja como for, depois de rebentar não há como escapar-lhe. Esta aparente calmaria é um pouco estranha. Ou os portugueses estão conformados, ou estão convencidos que o “bunker” da União Europeia lhes garante a necessária proteção.

É um facto que a União Europeia virá em nosso auxílio com um esperado generoso programa de recuperação económica. Para além das linhas de crédito de emergência (de que o governo ainda só utilizou metade!) e mais uns quantos empréstimos direcionados ao SNS e aos apoios sociais (que chegarão lá para setembro), vem aí um reforço para o próximo quadro comunitário 2021-2027 que poderá, entre subvenções e empréstimos, mais do que duplicar os valores que estavam previstos.

Mas não haja ilusões. Os imensos prejuízos que já se registaram e os que se irão somar ao longo dos próximos meses não vão ser apagados. Teremos todos uma fatura de dívida muito maior para pagar nos próximos anos e os apoios/incentivos vão ter que resultar em verdadeiros acréscimos na produtividade e na criação de riqueza, sob pena da economia sucumbir sob o peso do endividamento. Isso vai implicar sacrifícios e mudanças estruturais.

Nós, no nosso sector, escapámos aos efeitos imediatos da explosão, mas sabemos bem que, se a economia não recuperar, o crescimento, o imobiliário, a construção e os materiais de construção serão, a prazo de ano e meio, dois anos, a próxima vítima.

 

 

Boletim Materiais de Construção nº 370

PDF || Versão Completa

 

Publicações Anteriores