Boletim Materiais de Construção nº 376

Atenção aos “calotes”!

Como previmos em maio, o ano de 2020 fechará sem quebra de vendas no setor dos materiais de construção e, muito provavelmente, até com o registo de um pequeno crescimento.

Apesar do agravamento da crise económica, induzido pela segunda vaga da COVID-19, as nossas expetativas para 2021 permanecem moderadamente otimistas e admitimos, inclusivamente, que o nível de negócios poderá manter-se, ainda que a retoma da dinâmica do investimento em construção se preveja agora adiada para 2022.

Na verdade, os trabalhos em curso atualmente garantem a utilização plena da capacidade das empresas de construção para mais quatro a seis meses e, apesar da suspensão de muitos projetos, do adiamento de outros tantos e da redução acentuada de novas iniciativas, ainda há um número significativo que está a arrancar ou “à espera de vez”. Até junho de 2021 a pandemia deverá estar sob controlo na Europa e na maior parte dos países mais desenvolvidos, permitindo o retomar das viagens e a normalização da generalidade da atividade económica, podendo mesmo haver uma “explosão”, não só no turismo, mas no consumo e no investimento em geral, em resposta ao “potencial” acumulado e à reposição dos níveis de confiança.

Esses desenvolvimentos irão ter efeitos ao nível da construção, sobretudo a partir de 2022, dado tratar-se um sector de “ciclo longo”, com tempos de resposta, de produção e de inércia superiores à maioria das outras atividades. O comportamento do mercado imobiliário será um bom indicador, por antecipação, do que se irá passar na construção e nos materiais de construção.

Aquilo que mais nos preocupa e que nos é mais difícil prever são eventuais dificuldades financeiras, consequência da grande vulnerabilidade do setor financeiro nacional, da exposição dos setores publico e privado ao endividamento e da dimensão elevadíssima do peso das “moratórias”, que já é superior a 22,2% do total do crédito concedido a empresas e famílias (que compara com 7,1% em França, 9,6% em Espanha e 13,1% na Itália).

É difícil prever como vamos sair desta situação, mas as restrições de crédito e de liquidez deverão tornar-se evidentes no curtíssimo prazo. Mesmo com a poupança em níveis historicamente elevados, esta não será transformada em crédito, nem em investimento enquanto a confiança não regressar e, para os já endividados, dificilmente haverá margem para novos empréstimos.

No setor imobiliário, em particular, já todos nos apercebemos que os promotores estão a experimentar um aumento crescente no prazo de venda do respetivo produto o que, dependendo da respetiva capacidade, poderá originar situações de stress de liquidez.

Nestas condições, será conveniente reforçar o rigor e usar da maior prudência no crédito aos clientes. Mesmo que a procura se mantenha forte, os recebimentos poderão tornar-se, no mínimo, mais demorados.

Convém evitar situações do passado recente de que todos certamente estarão recordados!

 

Boletim Materiais de Construção nº 376

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