Boletim Materiais de Construção nº 374

“Viver sem trabalhar num país à beira mar”

Era este o título de um dos mais deliciosos livros satíricos dos anos oitenta do século passado, onde o autor, Luís Campos, identificava e retratava, de forma finamente crítica e bem-humorada, todo uma diversidade de esquemas utilizados por diversos grupos da população portuguesa para sobreviver naqueles tempos de pobreza e permissividade que se seguiram à “Revolução dos Cravos”.

Quarenta anos volvidos (estranha coincidência, mas só na duração, com os outros 40 anos da “longa noite”…), muita coisa mudou obviamente, em particular os “esquemas” de então. Só o que não mudou foi a cultura subjacente que, todos os dias, nos esfrega na cara a evidência de que as melhores formas de enriquecer ou de simplesmente “ir levando a vidinha” não são através do trabalho.

A propósito, importa referir que naquela altura, como hoje, trabalho e emprego não são sinónimos. É possível ter muito trabalho sem ter um emprego, da mesma forma como é possível ter um ou vários empregos e nunca trabalhar. Da mesma forma que é possível ter um ou mais subsídios e acumular os mesmos com emprego ou empregos e, por fatalidade, até com trabalho!

Para quem quiser aprofundar a matéria aconselho a leitura do livro, ainda que adquiri-lo só seja possível em alfarrabistas ou na internet.

A situação que hoje vivemos com a COVID-19 e o comportamento da administração pública, maioritariamente paralisada e em casa, fez sobressair alguns dos traços mais negativos do seu funcionamento alheado dos cidadãos, incompetente, ineficaz e caro, que traduzem bem a cultura do “cada um trata de si e o Estado dos seus” que há muito se instalou. O sacrossanto SNS que se pretende cuidar da saúde pública (e da dos portugueses), que tem cerca de 131 000 profissionais, dedicou-se quase exclusivamente à COVID e desamparou as outras doenças. Os internados nunca ultrapassaram um número a rondar os mil, mas entretanto ficaram por tratar dezenas ou centenas de milhares de outros casos, não se realizaram mais de 2 milhões de consultas de diagnóstico e morreram a mais do que a média dos últimos anos, de março a agosto, quase seis mil portugueses (sem COVID). Conclusão, a falta de resposta do SNS deixou morrer 5 vezes mais portugueses que aqueles que a COVID matou!

Porquê? Porque não funciona e ninguém, a começar pela Ministra da Saúde, gere ou se responsabiliza pelo que se passa. Em maio, o número de faltas ao serviço no SNS rondou as 600 000. Sim, parece inacreditável, mas faltaram em média, todos os dias, mais de 27 000 profissionais. Vinte e tal por cento de absentismo! E não foi certamente por cobardia, uma vez que os números de faltas não andam habitualmente muito longe destes. Faltam, maioritariamente, por motivos de doença. Ao que parece, o SNS nem da saúde dos seus consegue cuidar…

Solução à portuguesa: contratar mais gente.

O governo já anunciou que vai integrar imediatamente mais 3.000 profissionais de saúde no SNS. Provavelmente, nas semanas seguintes, vai aumentar o número de faltas!

 

Boletim Materiais de Construção nº 374

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