Boletim Materiais de Construção nº 372

O pior ainda está para vir?

Nos últimos dias, coincidindo com a divulgação dos dados provisórios das contas nacionais relativos ao 2º trimestre, que entre nós apontam para uma queda homóloga do PIB de uns impressionantes 16,5%, ouvimos várias vozes, desde economistas a comentadores, a declarar que, em termos de impactos desta crise, nas empresas, nas instituições e nas pessoas, os aspetos mais negativos só se irão fazer sentir dentro de alguns meses.

Para sermos sinceros, os números da redução da atividade económica em Portugal, como no resto da Europa (e em todo o mundo), são de uma tal dimensão que interpretá-los, isto é, apreender de forma compreensiva o seu significado em termos de alterações no tecido económico e social, sejam as de efeito imediato, sejam as que condicionam a evolução futura, é praticamente impossível. Não há experiência, nem modelos, nem informação adequada a uma situação destas. É tão mau ou pior do que aquilo que se sabe sobre este novo coronavírus…

O mesmo se aplica à recuperação. O confinamento a que o mundo continua sujeito nesta fase em que a pandemia ainda se expande e em que os surtos, de maior ou menor dimensão, surgem diariamente, mesmo nos países que tiveram inicialmente bons resultados em evitar a propagação, irá condicionar o exercício das atividades económicas em todo o mundo por ainda muitos meses, tantos quantos os necessários para que terapias com eficácia comprovada e a vacinação em massa se torne uma realidade. Só isso fará abrandar o medo que se generalizou e permitirá retomar as atividades económicas, o funcionamento das instituições, a circulação das pessoas e o consumo.

Até lá, não haverá recuperação possível. Não nos enganemos. Sem confiança não há investimento nem consumo e sem eles não há economia.

Isto não se trata de uma mera questão de percentagens. Como todos sabemos, as diversas atividades, para mais num mundo globalizado em que a complexidade e extensão das cadeias de valor são enormes e a eficiência dos processos produtivos determina o posicionamento de cada empresa, desenvolvem-se dentro de parâmetros muito apertados de gestão dos recursos e produtividade. Uma variação de 10% nas vendas durante um período de poucos meses pode ditar o fim de uma empresa. O cenário que estamos a viver poderá significar uma onda de falências de dimensão nunca vista e com consequências imprevisíveis.

É por isso que as ações que estão a ser desenvolvidas pelos governos e instituições financeiras internacionais são tão importantes. Se falharem na minimização dos prejuízos, seja no desenho, seja na intensidade e, sobretudo, no tempo de aplicação, vamos ter problemas sociais de grande dimensão. Convenhamos que, no nosso país, a governação tem uma tradição pouco recomendável nesta área. Basta ver o que se tem passado com as hesitações, atrasos e confusões, nas linhas de crédito, no lay-off, nas rendas, nos seguros de crédito, nos apoios aos independentes, etc.

Falar de crise quando o nosso setor parece ter escapado “entre os pingos da chuva”, sobretudo em Portugal, poderá parecer uma obsessão ociosa. Felizmente, não se avistam sequer “nuvens negras” no horizonte. Devido a fatores particulares que temos destacado noutras ocasiões, as condições da procura e de financiamento asseguram trabalho por mais de ano e meio, sobretudo no segmento da construção nova, da manutenção e pequena reabilitação e, também, das obras públicas.

Se estamos preocupados é porque o nosso setor não é uma ilha e, mais cedo ou mais tarde, partilharemos o destino dos demais.

Boletim Materiais de Construção nº 372

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