Boletim Materiais de Construção nº 366

Nota de Abertura

Os quatro cavaleiros do apocalipse!
 

Tornou-se habitual nos partidos da situação responder a qualquer crítica acerca das respetivas opções em matéria económica ou que incida sobre alguma das abundantes e avulsas medidas de política, seja no âmbito da despesa pública ou dos impostos, taxas e sobretaxas, com algum desdém e escárnio sobre uma famigerada invocação do “Diabo” feita por um ex-Primeiro Ministro e que nunca se concretizou.
 

É verdade que o “Diabo”, pesem alguns erros crassos da governação, sejam eles por ação ou por omissão (num quadro em que de acordo com a visão da esquerda mais retrógrada e salazarenta da Europa se continua a atribuir a primazia ao Estado, qual criação perfeita que tudo pode, tudo dá e tudo resolve, em prejuízo dos cidadãos e das empresas, que no seu egoísmo perverso só procuram o benefício próprio), não voltou a visitar-nos desde aqueles anos de 2011 e 2012, em que, encarnado na “troika”, semeou todo um sem número de supostas malfeitorias.
 

O diabo é que o “Diabo” acaba sempre, mais tarde ou mais cedo, por regressar, ou não fosse da natureza dos povos, como é dos indivíduos, incorrer no deslumbramento e no erro.
 

A tentação está sempre presente e a ausência de consequências pelos primeiros e pequenos erros alimentam a confiança dos mais atrevidos, a sensação inebriante do sucesso e o sentimento de impunidade.
 

A inveja, a arrogância, a ignorância e a desonestidade são os autênticos “cavaleiros” e os piores dos conselheiros que se colam como uma segunda pele aos que, no exercício do poder, ou no meio da turba, ignoram a realidade dos factos e os direitos, o património e os projetos de vida dos demais e, como pequenos deuses, inchados pelo convencimento da sua própria infalibilidade, desenham e querem impor aos outros, contra tudo e contra todos, as receitas e as regras que só funcionam na sua perturbada imaginação. Este é o caminho certo para o “inferno”.
 

Vem isto a propósito das medidas que o Governo e os partidos da extrema-esquerda estão a desenhar para o setor imobiliário no âmbito do OE para 2020. Ofuscados pelo brilho dos negócios do setor imobiliário, e a pretexto da escalada de preços no setor (que naturalmente prejudica o acesso das famílias com menos rendimento à habitação e a mobilidade profissional em termos territoriais), pretendem restringir o investimento estrangeiro no setor através do fim dos “golden visa” nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, aumentar os impostos sobre os rendimentos do alojamento local e sobre as transações imobiliárias realizadas por fundos de investimento, afastar os residentes estrangeiros não habituais e proceder ao englobamento dos rendimentos prediais em sede de IRS. Isto já depois de uma série de medidas prejudiciais ao investimento no setor imobiliário tomadas nos últimos dois anos, como o Adicional ao IMI, a criação de áreas de contenção para o alojamento local e as alterações ao regime do arrendamento urbano.
 

Tudo isto parece um absurdo! Não só porque foi o investimento estrangeiro no imobiliário que alavancou (e continua a sustentar) a reabilitação em curso nos centros históricos das nossas principais cidades, como foi a interação entre este e a atividade turística que permitiu ao setor do turismo ser hoje o campeão das receitas externas e o motor da economia e do emprego. Mas ainda mais, foi o dinamismo do setor imobiliário que permitiu a retoma da construção e a valorização do património de centenas de milhares de famílias que se endividaram para comprar casa (e o dos próprios bancos…).
 

O sinal que está a ser dado, quer lá para fora, quer cá dentro, é extremamente negativo. Mas é-o sobretudo para os investidores imobiliários estrangeiros que acreditaram nas oportunidades que Portugal oferecia e que hoje já estão a promover a construção de habitações para a classe média, que foi algo que o Estado, que tanto se queixa e que tudo sabe, pode e manda, nunca fez, tal como não fez a reabilitação dos centros urbanos.
 

Se os estrangeiros desacreditarem e se retirarem, a fileira cai como um baralho de cartas e o país será arrastado rapidamente para a estagnação económica. Aí os portugueses voltarão certamente a ter casas mais baratas, mas não terão emprego nem salários para as comprarem, nem para pagar a renda ou a prestação ao banco.
 

 

 

Boletim Materiais de Construção nº 366

PDF || Versão Completa

 

Publicações Anteriores