Os edifícios também se podem fazer na ‘fábrica’

Elisabete Soares, Imobiliário, Jornal Expresso, 1 setembro 2022

IMOBILIÁRIO
Inovação
O aumento dos preços dos materiais e a falta de mão de obra levam as empresas a testar as soluções de construção modular

Os edifícios também se podem fazer na ‘fábrica’

“A construção modular pode ser a solução para ajudar a resolver a escalada do aumento de preços dos mate­riais de construção e as dificuldades de mão de obra. Ao Expresso, José de Matos, secretário-geral da APCMC — Associação Portuguesa dos Comerciantes de Materiais de Construção, e Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult, consultora que atua nas áreas de engenharia e fiscalização de obra, acreditam que a solução para o sector passa por industrializar progressivamente o processo construtivo com recurso a soluções off-site, ou seja, fora do local da obra.

O processo de construção modular e pré-fabricação assenta na industrialização progressiva do processo construtivo, preparando em fábrica uma boa parte dos componentes do edifício, que são depois transportados para a obra, poupando no tempo da sua execução, no volume de mão de obra e ainda nos materiais utilizados, e conseguindo ainda atingir maior rigor e qualidade do produto final.”

De acordo com José de Matos, a “resposta a este desafio até já existe e está a ser dada por um número ainda pequeno, mas crescente, de empresas de construção e também por novos players, mas precisa de ser muito otimizada e alargada”.

É PRECISO GANHAR ESCALA

Nuno Garcia, da GesConsult, confirma a existência de empresas focadas nos novos conceitos e soluções de construção, “embora ainda não em grande escala”. Frisa que “as construções modulares e pré-fabricadas, enquanto caminhos alternativos, precisam de ganhar o seu espaço no mercado, sendo que o momento que atravessamos é uma boa oportunidade”.

Um desses casos, apresentado recentemente, está a ser desenvolvido pelo grupo Casais. Trata-se do projeto FioBlu, uma plataforma que disponibiliza soluções de construção modular e de fácil aplicação. De referir que o primeiro edifício de construção híbrida (madeira + betão) da Península Ibérica foi o Hotel B&B Guimarães, por parte da Casais, na freguesia de Azurém. O projeto contempla várias soluções off-site e, para além dos aspetos de sustentabilidade ambiental conseguidos, “permitiu encurtar os prazos de execução em 50%”, refere a empresa bracarense.

Recentemente também a Fundação Norman Foster e a construtora portuguesa Dst Group fecharam uma parceria para desenvolver e promover soluções de construção modular e pré-fabricação com o objetivo de responder à maior procura.

Aliás, as consequências da atual conjuntura levaram a Dst a adaptar o projeto da Smart Studios Asprela, no Porto, para construção modular já com a obra em execução, conseguindo assim — segundo a informação do grupo construtor — “garantir o cumprimento do prazo de execução da obra”.

Nuno Garcia alerta, no entanto, para o “confronto entre os materiais ou métodos disponíveis e o que o clien­te acaba por escolher, pelo que esse equilíbrio é condicionado”. Mas vinca que, ao observarmos o exemplo dos países nórdicos, percebemos que projetos com “uma execução mais rápida permitem fazer evoluir os processos, responder às necessidades e não escalar tanto os preços finais das obras”.

OS MAIORES DESAFIOS

Na opinião dos profissionais, há, naturalmente, muitos desafios neste processo. Para começar, de ordem económica — caso do investimento necessário —, mas também técnicos e logísticos e até de adequação de alguns materiais.

Contudo, segundo o responsável que representa os comerciantes dos materiais de construção, “o maior dos problemas está do lado dos promotores, dos projetistas e das próprias entidades licenciadoras, para além da perceção de qualidade que os clien­tes finais têm destes sistemas”. A começar pelo facto de este tipo de construção carecer de um projeto específico, já que não dá para adaptar um projeto feito a pensar na construção tradicional.

Assim, os grandes desafios passam pela obrigatoriedade da “digitalização da informação e respetiva interoperabilidade, desde o projeto, passando pelo sistema logístico e pelos fabricantes de materiais e também pela produção dos módulos, componente ou os kits (artigos), até à construção propriamente dita”, acrescenta.

A construção de uma parte das 28 mil habitações previstas no PRR seria uma “excelente” oportunidade para a produção modular

Para José de Matos, um aspeto importante a ter em conta é “reconhecer que a escalada recente dos preços dos materiais de construção está já a ter impactos no abrandamento do ritmo da atividade da construção”.

Na sua opinião, é possível que neste momento este fator, aliado ao aumento do custo da mão de obra, “esteja a contribuir para a suspensão ou o adiamento de projetos ou, noutros casos, para a interrupção dos trabalhos, quando mais não seja pela necessidade de dirimir conflitos surgidos ao nível das relações contratuais entre donos de obra e empreiteiros”. Por isso é imperativo melhorar a efi­ciência do processo de construção de forma a reduzir substancialmente os respetivos custos.

O responsável da APCMC acredita que “se há algum benefício que possamos extrair das dificuldades colocadas por esta conjuntura, é exatamente o de apressar a mudança de paradigma”.

Alerta para o facto de, apesar da pressão da procura e do aumento dos preços do imobiliário, há um limite para o preço que os clientes estão dispostos ou podem pagar. “Em alguns casos, o aumento dos custos poderá ter deixado de ser compatível, quer em construção nova, quer em reabilitação, com esse preço-limite.”

RESOLVER A FALTA DE HABITAÇÃO

De referir que, no caso da mão de obra, “os fatores estruturais nesta área irão continuar a ditar uma si­tuação de agravamento da escassez e o consequente aumento dos salários”, acrescenta.

Na opinião do responsável da GesConsult, as condicionantes atuais, nomeadamente as geradas pelo conflito na Europa, trazem desafios acrescidos a uma situação que já vivíamos antes, mas acredita que o problema da falta de habitação em Portugal pode ser resolvido com medidas de estímulo à atividade. “Empréstimos em condições favoráveis, uma carga de impostos mais leve, processos de licenciamento mais ágeis e programas de apoio dirigidos à construção de habitação acessível” são, segundo o responsável, medidas prioritárias para responder às necessidades das empresas do sector e das famílias que procuram soluções ajustadas ao seu rendimento.

Um dos problemas com que se debate a construção modular é alterar o paradigma, já que, enquanto a “opção pelos sistemas de construção tradicio­nal prevalecer por parte dos donos de obra, será difícil que os novos processos ganhem escala”. Por isso os profissionais consideram ser decisiva a “utilização dos instrumentos de política pública no sentido da promoção de uma nova forma de projetar e construir, dando prioridade à utilização das ferramentas BIM e aos processos de construção modular nas obras que contrata”, desabafa José de Matos.

Assim, conclui que “a construção de uma parte das 28 mil habitações previstas no Plano de Recuperação e Resiliência seria uma excelente oportunidade para aplicar os novos conceitos, ganhar tempo, poupar dinheiro e fazer edifícios mais sustentáveis”.